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Excertos «Com a sua unha cortou o seu próprio pulso, fazendo seu sangue pingar sobre a cama e disse-me para beber. Colocou o seu pulso sobre a minha boca e como a gota de orvalho cai da pétala de uma rosa, assim o seu sangue pingava para mim... Em cada gota que bebia sentia o meu corpo a arder por dentro. Uma fome consumidora crescia dentro de mim cada vez mais e mais a cada gota do seu sangue. Uma força fez-me agarrar o seu pulso e beber furtivamente como se uma sede interminável se apoderasse de mim. O meu corpo doía cada vez mais, mas continuei a beber até que a dor se tornou insuportável... Contorci-me com dores como se meu peito se estivesse a incendiar... As minhas pernas e braços ardiam também... A dor era tão grande que gritei como se a minha alma estivesse a ser arrancada do meu corpo e, subitamente... A dor desapareceu...» De: "Memórias de um Vampiro"
«O seu cabelo também ruivo e ondulado como o da minha antiga noiva, esvoaçava ao vento. Naquele momento foi ela que não se virou, mas ela sabia que eu estava ali... Pensei em mil e uma coisas para dizer, até que, quando optei pelo banal “boa noite”, antes de o pronunciar, ela começou a falar: - Não sei quem és, mas penso saber o que és... Sabes, esta noite tive um sonho contigo... Eu escutei, sem reacção, as suas palavras. Ela continuou com a sua voz calma e paciente: - Sonhei contigo num parque. Era de noite. Apresentaste-te a mim saído das sombras das árvores. Sentámo-nos num banco de pedra e falaste-me de ti; o que eras e no que te tornaste. Sei que és um Vampiro. Mas não tenho medo, pois falaste-me da tua dor, dos teus demónios e falaste-me de... Amor. Nós beijamo-nos e eu apaixonei-me por ti. Só quero que digas uma coisa... Diz-me que esse sonho não foi imaginação... - A jovem baixou a cabeça aguardando a minha resposta.» De: "Memórias de um Vampiro"
« - Calma, Daimon. Não sabes se foi Charles, Terum ou outro vampiro qualquer. - Janus... alguém feriu Lília. – Digo, sentindo uma raiva a crescer dentro de mim. - Sim, mas havemos de... - Havemos de quê, Janus?! – Grito, soltando a minha ira descontrolada. - Vês?! Não existe santidade! Muito menos nos da nossa espécie! Tu ensinaste-me isso! Lembras-te? Todos nós somos amaldiçoados! A minha voz ecoa pela clareira. Já ninguém está presente, mas decerto que todos ouvem a minha raiva. Janus não fica surpreso com a minha reacção. Ele simplesmente me deixa falar como sempre fez. - Sim, nós protegemos os humanos dos vampiros do Ser Impuro, mas em troca de quê? Do seu sangue?! Vês esta arma? - Pergunto exaltado, enquanto retiro a bainha do sabre da minha cintura. – É esta a espada de um vigilante?! Esta espada já provou mais sangue do que devia! Mais valia matá-los a todos! - Grito lançando o sabre ao chão, fazendo-o soltar-se da bainha com um som metálico que percorre as árvores mudas. Janus deixa o seu olhar cair sobre a espada coberta de pó. Parece que a própria natureza se torna imóvel temendo o meu Ser Impuro que se debate por acordar. Os passos de Janus aproximam-se lentos da minha espada enquanto eu olho para o céu em desespero, com a ira a consumir-me como se o meu corpo estivesse a arder. - Como Lília disse uma vez: "Nós temos direito às nossas fraquezas...". - Começa com uma voz serena. - Eu sei que talvez não haja santidade, mas temos todos de acreditar em algo, não? Nem que seja numa mentira. Janus ergue o sabre do chão e com a mão sacode o pó da lâmina enquanto continua: - Preferias ser um deles? Preferias viver uma mentira? ...» De: "Ascensão de Arcana"
«Charles cai no chão de joelhos quando o vampiro nipónico crava um dos Sai nas suas costas, rasgando não só a sua camisa negra mas também a sua carne. Griffin lança a sua trança vermelha sobre o ombro e corre em direcção ao carro ao lado do qual Teykian permanece ofegante. Toma impulso no pára-choques e investe saltando de novo sobre o vampiro que usa a sua lança como defesa. A força do salto de Griffin é demasiado forte, o que faz a lança quebrar-se em duas e abrir espaço para o seu outro pé empurrar violentamente o adversário para trás. Viro-me sobre a bagageira, e de costas no vidro traseiro, lanço um pontapé à face desprotegida do vampiro horrendo que se aproxima. Os ossos do seu pescoço estalam ruidosamente ao mesmo tempo que recua uns passos. A sua face hedionda contorce-se numa expressão dolorosa e num gesto rápido, vira a sua cabeça, voltando a recolocar os ossos no lugar numa sucessão de estalidos. Mas é tarde. A ponta do meu fiel sabre toca já o seu pescoço. Ainda deitado sobre o porta-bagagens, a minha mão aponta o sabre reluzente aos olhos arregalados de espanto do vampiro...» De: "Ascensão de Arcana"
«O caminho que percorremos é longo e pesado, até mesmo para mim, na minha condição de imortal... O peso dos séculos começa a sentir-se e revela-se até nas pegadas na lama, que se estendem por trás de mim, e que agora parecem mais fundas... A claustrofobia invade o espaço aberto da cidade que se abre pelos meus passos e me toma lentamente como um veneno que queima as minhas veias. Eu prometi para sempre manter a minha paz. Prometi para sempre erguer a chama de um Anjo sobre a minha cabeça. Para sempre ficar firme ao solo sagrado resistindo a ventos e tempestades. Para sempre guardar a súplica do homem longe dos ouvidos de Deus. Para sempre velar a noite e as horas cansadas de vós que tendes tectos de estrelas. Mas agora, no fim, sinto que caio ao chão e banho a terra seca com o sangue das minhas lágrimas, tornando a terra em lama sangrenta, chorando, gritando e suplicando, consciente de que a minha raiva é dirigida a um Deus que mantém os seus olhos longe dos que já cumpriram a sua missão... Pois é deles o Reino dos Céus.» De: "A Redenção"
«- Daimon, o que se passa realmente contigo? - Pergunta sem olhar para mim. Ela continua à janela com o seu vestido a ondular à brisa que percorre do jardim trazendo sons vagos da cidade. - Tu sabes o que se passa... - Daimon, eu também tenho os meus demónios! - Diz bruscamente. - Repete-me outra vez o que se passa contigo para eu me lembrar... Sinto que a atitude de Lília é de cansaço e precisa de saber se vale a pena continuar. Não é fácil levar um fardo como eu às suas costas... Um fardo como eu às suas costas... - Lília, desculpa... - Repete por favor! - Sinto que o meu mundo acabou. Tudo o que havia nele foi varrido da face da Terra. Sinto-me condenado a perpétua numa cela que há por baixo da minha pele... e o meu companheiro é o meu demónio, o meu Ser Impuro. - Continua. - Diz de um modo algo frio. - Tu és o que me mantém vivo, o que me dá esperança. Nem Arcana, nem Ascelli, nem Pandora e Andrew me... - E o que disse Andrew ontem? - Inquire. Hesito em responder a verdade. Lília, como minha Filha, sente-o. - Quero a verdade, Daimon. Ganhando coragem para lhe dizer a verdade, começo: - O Andrew profetizou que...» De: "A Redenção" |