Universo

Sinopse

Em 2111, o mundo vive enclausurado numa nuvem de poluição. Portugal não foge à regra. As pessoas debatem-se nas ruas da capital por ar puro e dignidade. Os Tecnal, soldados com implantes mecânicos, foram proscritos pela sociedade estratificada, mas uns quantos sobreviveram, perseguidos por uma polícia especial e dependentes de uma droga potente. Filipe, agente desta força policial, está dividido entre seguir a lei ou o instinto. Embrenhado naquele submundo, cedo descobre que os Tecnal podem ser a chave para uma verdade maior. A ele juntam-se personagens surpreendentes e fortes, perdidas na ambiguidade da sua própria condição.

Prólogo

O mundo é agora uma sala cheia de fumo.
Faz dezasseis anos desde que o manto de pó negro fechou a atmosfera como as grades de uma jaula. O mundo de antes não passa agora de uma recordação de quem nele ainda viveu… pois ele não existe mais.
Eu lembro-me de um sol luminoso e das manhãs claras, da sensação que me provocava o cair lento da noite. As noites de outono eram as minhas preferidas; a humidade realçava o aroma das árvores, da terra e até mesmo das folhas castanhas caídas no asfalto. Isto quando as estações ainda tinham uma paleta repleta de cheiros e cores distintas.
Lembro-me de tempos de paz e de guerra, lembro-me de homens a digladiarem-se por ideais e a morrerem por eles. Contudo, o fim chegou quando o planeta mergulhou num turbilhão caótico de eventos e os sonhos se perderam em terras tóxicas.
Lembro-me dos heróis e dos vilões do passado. Em verdade, conheci tantos que cada vez se torna mais difícil recordar-me de todos. Mas há um bem presente, prestes a acordar para a luz do destino, do fado que lhe irá revelar o seu caminho numa dança mortal de tudo ou nada. É deste herói que vos quero falar. Mas, para o entender, temos antes de compreender o que aconteceu ao mundo.
Neste momento, para quem ainda queira contar, decorre o ano de 2111. A História previa grandes feitos para esta data, grandes avanços e descobertas. De facto, o que era ordinário deixou de o ser, pois o milénio abriu portas à alta tecnologia. As empresas, sequiosas por imitar os contos de ficção científica, investiram no desenvolvimento da biotecnologia e da nanotecnologia; tecnologia à escala celular, máquinas de tamanho microscópico, materiais mais resistentes que o aço e apenas com um décimo do peso ‒ o homem a querer tomar o lugar de Deus, a querer dobrar as leis da física, da química... e da vida. Era inevitável dar-se um salto súbito e tremendo nestas áreas, às quais o poder político se associou como um parasita para tirar proveito destes avanços. A vida artificial estava à beira de se tornar uma realidade.
Como na corrida à Lua, cada grande potência tinha os seus cientistas e investigadores, cérebros pagos a peso de ouro, a desenvolver esta ideia de vida artificial. E que país não estaria interessado em conquistar esse lugar na História? Mas o que começou por uma questão de ego rapidamente se transformou numa tensão latente e imprevista; a possibilidade de um país gerar exércitos de um dia para o outro e lançá-los incessantemente no campo de batalha; clones sem alma, sem família, sem ordenado, controlados a bel-prazer como marionetas alteradas geneticamente, híbridos de humanos e máquinas, mais rápidos e fortes, capazes de desempenhar todas as funções militares dez vezes melhor que o soldado normal.
E da tensão veio o medo… e do medo veio a tensão novamente ‒ uma nova Guerra Fria.
Que país criaria mais soldados, denominados já de Soldados H, com a tecnologia mais avançada, em menos tempo? Que presidente teria um império como Roma ou a Pérsia?
Mas o que restava da noção de direitos humanos não permitiu que assim fosse, colocando o pé bem fundo no travão desse veículo desgovernado. Havia ainda homens de honra que, apesar das ameaças, se recusaram a colocar a sua assinatura num documento que iniciaria uma nova era de trevas.
No entanto, era já tarde demais. A crise iminente era uma massa que asfixiava o mundo. O último tiquetaque de uma bomba preparava-se para soar pelo planeta. Decorria o ano de 2089 e o mundo já se tinha dividido em três confederações ‒ cada uma delas liderada pelas grandes potências da atualidade de então. Uma delas, a América Unida, liderada pelos Estados Unidos, que depois da guerra no Médio Oriente se voltou para o Sul do continente americano em busca de recursos. Brasil e Argentina, ricos no setor de extrativismo, refinaria de petróleo e siderurgia, foram os primeiros a ser pressionados pelos Estados Unidos. Depois destes, todos os países vizinhos se lhes seguiram. Num abrir e fechar de olhos, a América Unida estava formada, englobando todos os países do continente americano ‒ a Ilha Americana, chamam-lhe alguns. Outra confederação a formar-se foi a Europeia, que, liderada pela Alemanha, assimilava todos os países da Europa. Os países que até então eram candidatos a entrar na Comunidade Europeia foram recebidos de braços abertos. Formou-se assim a Confederação Europeia. Mas a mais temida era a Aliança Asiática, liderada pela China, que uniu não só o Japão e a Índia, mas também os países do Médio Oriente. Englobando ainda todo o continente africano, era uma força bruta de recursos, homens e tecnologia. As relações históricas com a Europa de nada serviram aos líderes africanos perante as propostas de riqueza e de segurança deste novo império oriental. Apenas a Rússia se manteve, e se mantém por enquanto, só. A grande potência do passado, a primeira a colocar um homem no espaço, consegue ainda prevalecer a qualquer aliança. Quer a Confederação Europeia quer a Aliança Asiática aliciam sistematicamente a Rússia para dar entrada nos seus impérios. É a exportação de gás natural, petróleo e metais que ainda lhe vai concedendo a autonomia e independência. Quanto à Austrália... bem, para um país isolado no meio do Pacífico, imaginem como estará... Nem os asiáticos lhe pegam.
Com os territórios desenhados no planisfério, as confederações ditavam as leis referentes à defesa, à economia e às relações internacionais quase num regime totalitário. Os países aliados deixaram de ser países para passarem a ser estados, que, embora com o mesmo nome, se vergavam sob a égide e o estandarte da sua confederação.
É impressionante ver como os homens pouco aprendem com a História, voltando a cometer os mesmos erros do passado. A tensão escalou para um nível incomensurável, foi uma bala disparada antes do tempo, uma bola de neve que se tornou gigantesca e impossível de ser parada, aumentando a tensão entre os líderes das confederações. Um novo Muro de Berlim, uma nova Cortina de Ferro, a censura para o povo tornado provinciano que repetia entre dentes de modo ignorante: «As outras confederações de certeza que já têm Soldados H! Temos de nos armar também!»
Mas não era apenas a corrida à criação de Soldados H o único problema, havia algo bem mais perigoso e invisível que se espalhava pelo mundo: os nanopoluentes. Estes desencadearam um vasto número de doenças e epidemias nas populações, dizimando aos milhares. Imagine-se que ninguém previu isto, penso com ironia: lixo tóxico, do tamanho de células, libertado na atmosfera como um tubo de escape ligado diretamente aos nossos pulmões.
Quando em alguns destes novos estados a poluição rasou o limite estipulado pela OMS, a emigração para outras confederações aumentou exponencialmente. As pessoas eram como ratos a fugirem de um incêndio que se alastrara por todo o prédio. Mas estas foram travadas por novas diretrizes das confederações: fronteiras fechadas! Não há acordos!
O mundo era uma granada prestes a explodir. O rastilho estava a milímetros de atingir o núcleo mortal de uma bomba. Líderes intransigentes gritavam das mesas contra outros líderes, impondo, criticando, ameaçando. O mundo rasgou-se quando a ONU, a NATO e tantas outras organizações foram dissolvidas.
Cada confederação estava livre para fazer o que bem entendesse. Tinha a força e a riqueza de dezenas de países, e cada uma delas dois alvos a abater ‒ as outras confederações. A Terceira Guerra Mundial era iminente.
A poluição aumentou ao ritmo das máquinas nas fábricas de armamento biotecnológico e nanotecnológico. O ar tornou-se mais denso; uma cúpula, negra e mortal, tornou-se o novo céu sobre as cabeças das pessoas presas em espaço aberto. A noite foi-se prolongando lentamente pelas horas do dia.
Aos olhos dos líderes, tudo valia nesta desordem.
Ainda hoje, o Sol consegue apenas romper a atmosfera, fria e seca, transformando o negro fumegante num cinzento doentio por cerca de três horas por dia, trazendo alguma luz às paredes imundas das cidades apodrecidas. Luz? Bem... eu não lhe chamaria isso. Depois de décadas de fumo expelido pelas fábricas, esses monstros que rasgam o horizonte em direção aos céus, a luz não é mais do que uma ténue claridade que se mistura no nevoeiro perpétuo, denso e tóxico, inspirado em cada golfada de ar que entra nos pulmões negros da população.
A cada dia que passava, os corpos caíam nos becos, nas ruas, nas calçadas imundas, sem que ninguém os visse, ou fingisse não ver. Um tossir mais persistente era um sinal de alerta. Sangue cuspido era a sentença entregue pelas mãos de Deus de que o tempo de vida estava a expirar.
Como sinto falta do aroma dos livros, das árvores ou até mesmo da água sem cheiro, pura e fresca de uma nascente…
Assim, o dia passou a ser uma noite constante, como se o inferno tivesse subido à terra vestido de negro, lançando o seu bafo mortal em todas as direções. Mas ninguém se parecia importar mais com isto. Os mais velhos já haviam morrido e os mais novos já tinham nascido no ventre deste caos, não conhecendo outro mundo senão aquele em que habitavam. Aqueles que ainda têm memória de um sol radioso lutam apenas para chegar ao fim de mais um dia de penumbra. A cultura, as artes, a educação ou até mesmo a religião são supérfluas a esta sociedade. Tudo é entrave à sobrevivência de mais um dia.
Mas pensam que a ousadia do Homem ficou por aqui? Claro que não! Depois da grave crise económica de 2095 que levou a maior parte da população à pobreza extrema e com esta o surto de novas epidemias, a nossa Confederação Europeia desenhou um sistema de classes para a população, racionando os recursos existentes por estas de acordo com as suas funções: os Pares, os Ímpares e os Nulos. Uma tatuagem no pulso direito, traços grossos e vermelhos desenhados por um químico secreto, assinalava a classe a que cada pessoa pertencia. Os Pares, com dois traços paralelos, eram as figuras influentes da sociedade, os provedores, os políticos, os homens e mulheres de estatuto profissional que mais contribuíram para o avanço desta grande organização. Os Ímpares, apenas com um traço, eram os operários, os trabalhadores esforçados que impediram os pilares de tremer, os peões. Por fim, os Nulos... sem qualquer marca, os degenerados, pobres, desempregados e doentes, os párias que os outros fingiam não ver.
Foi por entre estes últimos que a Confederação lançou uma campanha para angariar voluntários para uma nova era de soldados ‒ os Tecnal. Para quê desperdiçar dinheiro a replicar vida humana, se à porta há tanta matéria-prima por explorar e tão mais barata? Um projeto-piloto nos países mediterrânicos da Confederação, entre eles Portugal, França e Itália, pretendia unir finalmente as duas peças: humanos e máquinas.
Facto é que a população, miserável e inculta, dava-se como cobaia. Pessoas rotas e gastas, corpos sem alma movendo-se lentamente como espectros pela neblina cinzenta, faziam fila durante dias para serem testadas, sendo-lhes inseridas os mesmos implantes que foram desenhados para os clones, a troco de um punhado de créditos, a moeda retangular e translúcida da Confederação, feita de um material secreto e de uma textura inimitável, dinheiro que eles nunca chegariam a usar. Contudo, a voz monocórdica do locutor da única estação de rádio do estado continuava a seduzir o povo, fazendo-se ouvir através dos altifalantes roucos nas ruas cada vez mais desertas.
Tecnal, humanos tornados soldados com implantes cibernéticos. Pobres almas...
A nossa confederação foi, e continua a ser, liderada pelo general alemão Maik Eberhart, o Javali, como lhe chamam, não só pelo seu grande porte físico mas também pelo seu proeminente maxilar inferior. Tal como este líder, que outro se importaria que os pobres morressem em troca de armazéns cheios de supersoldados? Os pobres, essa praga que se estende e aumenta exponencialmente, morreriam na mesma mais dia, menos dia, com um sinal de sangue na tosse. É irónico pensar que eram estes os primeiros a ser escolhidos das filas... aproveitamento de recursos; há que colher a fruta antes que apodreça, não é verdade?
Se a nossa confederação conseguiu? Claro! Quando um animal faminto quer comer, corre sempre mais rápido.
Mas, em 2101, sucedeu algo que ninguém esperava: um vírus informático de nome Tânatos.
O Tânatos, silencioso, penetrou nos computadores principais das fábricas Tecnal e imprimiu o seu selo de morte nos chips usados por esses homens-máquinas. Quarenta e oito horas após a descoberta deste vírus, os dispositivos eletrónicos dos corpos dos Tecnal desligaram-se, fazendo os seus corações parar, os pulmões colapsar, ou simplesmente o sangue entrar em ebulição e jorrar por todos os orifícios do corpo. Outros enlouqueceram, pondo fim à sua vida pelas próprias mãos. A Confederação ficou silente por momentos, observando os corpos jazentes nos armazéns...
Como é óbvio, ninguém reivindicou este ato sangrento. Falou-se de terrorismo, de células rebeldes, esperou-se que dedos fossem apontados às outras confederações e que, com ou sem estes soldados, a guerra rebentasse como um tomate podre, espremido, deixando nódoas em todas as direções. Mas não. Nos dias que se seguiram, o luto serviu para observar outra coisa: o esgotamento dos recursos energéticos. Tudo foi consumido e desapareceu como migalhas depois de um piquenique. As formigas maiores colheram tudo: carvão, petróleo, gás natural... tudo foi desperdiçado em algo que se partiu.
O planeta era uma pilha quase vazia, uma lâmpada prestes a fundir-se. As terríveis condições atmosféricas impossibilitavam a frágil extração de urânio e a sua utilização em centrais nucleares. A cúpula tóxica que cobria a Terra inviabilizava o aproveitamento de energia solar. Não havia luz, radiação ou calor.
Foi esta escassez de recursos que levou o general Maik Eberhart a ordenar que se encerrassem as fábricas Tecnal e, num discurso histórico, dirigindo-se ao mundo e aos presidentes deste, apelou ao desarmamento, à união num combate contra aquilo que era agora a maior ameaça ‒ a poluição. Havia outras, claro, a pobreza extrema e a corrupção que reinava desde as ruas às altas esferas políticas. Tinha de se começar por algum lado, não?
A toxicidade do ar já aniquilara milhares de espécies animais; a flora, quase extinta, não conseguia produzir oxigénio, que se encontrava muito abaixo do nível ideal. A atmosfera negra e tóxica era uma cortina fumegante que sufocava o planeta.
Então, numa união já não vista há muito, as outras confederações responderam. Cientistas das três potências criaram uma ponte de encontro e desenvolveram um projeto comum: Purificadores, blocos do tamanho de arranha-céus, chamados de Moinhos. Eles foram erigidos por todo o mundo e, como gigantes de betão trabalhando vinte e quatro horas por dia, rodando as suas hélices num dispositivo avançado de engenharia física e química, são a esperança de um futuro melhor. Mas quantos anos serão necessários para limpar três décadas de poluição nanotecnológica, libertada a todo o vapor para a atmosfera? Como um vírus, esta peste silenciosa e mortal entranhou-se há muito em todos os ecossistemas e células vivas. O nevoeiro pestilento e nauseabundo ainda hoje me parece igual desde a inauguração destes gigantes...
Atualmente, quase tudo é racionado: a energia, a alimentação, o combustível. No nosso estado, Portugal, as únicas fontes de energia existentes provêm das ondas do mar poluído, de algumas barragens quase vazias e das torres eólicas do século passado. Cerca de noventa por cento desta fraca corrente é dirigida aos três Moinhos situados na periferia da capital e à rede de caldeiras subterrâneas que, como monstros por baixo da terra, sopram em cada quarenta e três segundos por aspersores, através das grades dos passeios da capital, vapor de água quente, tentando conferir algum calor e humidade ao ambiente. Os outros dez por cento são distribuídos pela população. A maior parte desta fatia vai para a Zona 1, o centro da metrópole onde habitam os Pares. Esta zona é um oásis urbano de claridade, isolada por paredes altas qual gigantesco condomínio fechado. O comércio faz-se com relíquias de um passado distante, alimentos orgânicos, roupa e água potável. Os Ímpares habitam a Zona 2. Nessa, a energia chega a cada apartamento decrépito numa fraca tensão que pouco mais suporta que duas ou três lâmpadas acesas de cada vez. Porém, o estado encarrega-se destes operários, distribuindo a alimentação diária em bisnagas de uma geleia negra, rica em proteínas, amarga e granulada. Nas ruas, as pessoas cinzentas e encasacadas circulam num constante semblante fúnebre, relanceando os céus plúmbeos, temendo o inverno e as chuvas ácidas. Aqui, o comércio é vago, pois poucos são os produtos que saem da Zona 1. Os hospitais pardacentos estão sistematicamente lotados, as escolas vazias, e os candeeiros com uma ténue luz branca, por entre o nevoeiro cinzento, concedem ao ambiente um tom tenebroso e sórdido a que ninguém parece reparar. Na Zona 3, embora não havendo uma separação física da 2, a energia dispensada mal chega para os candeeiros nas ruas que ainda subsistem ao vandalismo, disparando flashes intermitentes de luz branca que se perde na névoa densa. Os prédios não são mais que uma assombração de um caos urbano, blocos de cimento despidos, as ruas repletas de escombros e lixo que as percorre à mais leve brisa. Ali, tudo tem a mesma cor: preto e branco. Ali, é onde os Nulos se esforçam por sobreviver, onde o mais forte impera, sendo a única força de equilíbrio a Trisquel. Esta força policial, dividida em três unidades, investiga e estabiliza, com base num sistema criminal simplificado apoiado por um juiz, as Zonas 2 e 3 da metrópole.
Esta organização social, que conferia uma parca segurança, levou as pessoas a convergir para as metrópoles, levando à desertificação do resto do país, chamado agora de Zona 4, um deserto árido e frio de poeira tóxica.
Novidades? Uma delas foi que, ao contrário da ideia generalizada de que os Orientais se encontravam na vanguarda da tecnologia, afinal estávamos nós à frente já com uma linha de montagem de Tecnal. Outra novidade foi que, embora se julgasse que todos estes homens-máquinas se tinham suicidado dentro das caixas de brinquedos que eram os seus armazéns da Confederação Europeia, alguns apareceram inesperadamente nas ruas. Aparentemente, conseguiram sobreviver através de uma droga experimental, diz-se que de origem grega ‒ Hipnos. Quem a criou ou de onde veio ao certo, ninguém sabe, mas sabe-se que é a rainha nas ruas. Traficantes magros e sujos, conhecidos por Ratazanas, exibem-nas sob os seus casacos, vendendo-as e lutando entre si como um bando de animais que tenta estabelecer o seu território. Dez mililitros de Hipnos ‒ um soro com milhões de nanorrobôs ‒, injetados num dispositivo cibernético na pele do Tecnal, adormecem o vírus e afastam a morte por dois dias, voltando a energizar os mecanismos tecnológicos que mantêm o corpo a funcionar com a perfeição de um relógio suíço. Mas depois, como uma amante ingrata, a ressaca do Tânatos volta a fazer-se sentir, aproximando-se lentamente numa náusea, depois numa dor que se torna lancinante, a loucura e, por fim, o negro que se encontra no fundo do cano de uma pistola.
Pelo menos alguém manteve o sentido de humor ao batizar o vírus de Tânatos, a personificação grega da Morte, e a droga que o afasta de Hipnos, a personificação do Sono.
Os Tecnal, embora um grupo independente e sem qualquer organização, são como baratas que se escondem quando se acende a luz, resistentes e resilientes. Considerados foragidos por um decreto-lei emitido pela Confederação Europeia há oito anos, conhecido como Decreto-Lei 2103, que ordena a captura e reclusão dos mesmos, são ainda considerados armas vivas e descontroladas. É fácil deduzir que o verdadeiro problema aqui é que a Confederação não os consegue controlar, pois se conseguisse... sabe-se lá como estaríamos agora.
Pouco se sabe do resto do mundo para além das muralhas das fronteiras. A censura não permite que o povo saiba mais do que algumas linhas de notícias dadas através da única estação de rádio existente ‒ obviamente da Confederação. Estas linhas são lidas há anos pelo locutor de rádio na mesma cadência monocórdica que imprime nos cérebros da plebe as ideias subliminares que eles desejam implementar.
Apesar do trabalho conjunto na criação dos Moinhos, a tensão entre confederações mantém-se e as fronteiras continuam erguidas. Ninguém quer ser o primeiro a ceder.
Da Hipnos, a droga, sabe-se que algumas células rebeldes ainda perduram, produzindo este vitae que mantém os Tecnal ativos. Quando estes são capturados pela Unidade Antitecnal da Trisquel, são torturados e espremidos de toda a informação acerca destes laboratórios, mas eles, diabos que tentam simplesmente sobreviver às próximas quarenta e oito horas, nada sabem, pois o rasto desta droga perde-se nas Ratazanas que a traficam. Por ordem do decreto-lei, os Tecnal são sentenciados à reclusão. Claro que as prisões estão vazias; é só esperar dois dias para que o Tânatos faça a sua magia, o trabalho sujo.
Saibam que a Confederação tem medo dos animais que criou, pois estes têm capacidades extraordinárias, dadas consoante a função para que foram criados. Há apenas quatro tipos de Tecnal: os Batedores, que conseguem deslocar-se sem fazer barulho, ouvir um ramo a estalar a duzentos metros e portam uma capacidade de memória impressionante, com o objetivo de trazer o máximo de informações e detalhes de determinado local; os Tanques, que com a sua força sobre-humana conseguem dizimar sozinhos um pequeno exército; os Atiradores, que com uma precisão impressionante conseguem abater um homem a mais de três mil metros de distância; e, por fim, os raros Telecinéticos, que, tal como feiticeiros, conseguem manipular objetos apenas com a sua mente.
Com todos estes acontecimentos que ensombraram e assolaram a humanidade, neste mundo que se esmaga sobre o peso dele mesmo, houve outras coisas tão ou mais estranhas a emergir da penumbra; as pessoas chamam-lhes de Imortais, mas eles chamam-se a si mesmos de Nocturnus. Este grupo parece existir há muito, muito antes destes acontecimentos, muito antes de o Sol se ter encoberto. Esta casta de seres solitários, que se erguem pelas sombras dos prédios das cidades, tem um comportamento distinto, trazido de outras alturas; nobres, serenos, pacientes, como se o tempo não se interessasse por eles. Diz-se que alguns podem ter mais de duzentos anos. Quase indistinguíveis dos humanos, misturam-se na sociedade sem que ninguém saiba de onde vieram ou qual é o seu objetivo. O povo inculto julga poder tratar-se de uma secreta e antiga primeira geração de Tecnal, que, adormecidos, emergem agora neste tempo de caos.
Quando se esperaria um domínio da sua parte, nada é mais contrário. Diz-se que este grupo está também em vias de extinção, pois fala-se em surdina que o seu alimento é o sangue humano... e este há muito que deixou de ser saudável.
Estes seres de Nocturnus parecem ser apenas vigilantes, mantendo-se à parte de tudo e de todos. Talvez por isso as confederações prefiram ignorar a sua existência. Mas até quando? Certo é que ninguém estranhou a existência destes seres, pois do bizarro e do decadente está o mundo farto.
Mas o herói de quem vos quero contar a história não é um Imortal ou um Tecnal. Ele é um humano comum, com um nome comum, mas com características extraordinárias. O seu nome é: Filipe.